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São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em 24/01/2008, por Imprensa

Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

por Eleilson Leite (Le Monde Diplomatique Brasil)

 

Nesta sexta-feira, dia 25 de janeiro, a cidade de São Paulo completará seus 454 anos. Por conta disso, nos últimos dias, a mídia tem se ocupado com as inúmeras comemorações, enaltecendo sempre as mesmas coisas. Ou é o sanduíche de mortadela do Mercadão, ou os pratos grã-finos dos restaurantes dos Jardins. A suntuosidade do Teatro Municipal ou a arquitetura moderna do MASP. A Catedral da Sé, a Mesquita da Rua Avanhandava ou a Sinagoga de Higienópolis. O comércio do Bom Retiro e da Rua 25 de Março. O dinheiro que corre (ou flutua?) na Avenida Paulista e na Avenida Luiz Carlos Berrini. As baladas nas Vilas: Madalena, Olímpia e Mariana. Os japoneses da Liberdade, os italianos do Bixiga, os espanhóis da Moóca, e por aí vai. Vez ou outra, a pauta busca algo inusitado e as reportagens chegam à periferia. Mas quando se fala das bordas da cidade, é freqüentemente para mostrar que São Paulo tem vida rural. Como no distrito de Engenheiro Marcilac, no extremo da Zona Sul, de onde é possível avistar o mar. Sim, São Paulo faz divisa com Itanhaém, litoral sul. Dos 1.509 km² da capital, um terço não é urbanizado. Na maior metrópole do país, convivemos com agricultura, pecuária, suinocultura entre outras atividades econômicas típicas do meio rural.

Quero aqui falar de outra São Paulo. Vou falar da Periferia, pois é essa a minha missão. Mas não pretendo me queixar das misérias que tomam conta dos bairros afastados do centro. Sabe o porquê? Porque a Periferia é a maior parte da capital. Ocupa cerca de dois terços do território e possui dois terços da população. Um povo que vive amontoado em moradias precárias, favelas, conjuntos habitacionais, cingapuras e prédios da COHAB. Mas tem muita gente morando bem e dignamente na Periferia. Já disse aqui e repito: na Periferia a vida é bela apesar da mazela. E acima de tudo, a Periferia é grande, é maioria. Os símbolos tão abordados na grande imprensa para retratar São Paulo são ícones importantes, sem dúvida, mas habitam o imaginário de uma parcela cada vez menor da população. É preciso olhar a Periferia e retratar seus símbolos e encantos.

Mas afinal, qual o tamanho da periferia paulistana? Fiz as contas. Segundo o IBGE, no ano 2000 São Paulo tinha uma população de 10.434.252 habitantes (em 2008, chegaremos a 11 milhões). Esse povo se distribui em 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam cerca de 6.838.641 habitantes — ou seja, 63% da população. É bom que se diga que não estou considerando periferia distritos como Tremembé e Vila Medeiros, na Zona Norte, que têm bairros muito pobres. Não incluo também alguns da Zona Leste como Penha, Vila Matilde e Vila Formosa, assim como não considerei a Freguesia do Ó, cantada por Gilberto Gil como periferia no início da década de 80. Naquele tempo poderia até ser. Hoje, os distritos da Brasilândia e da Cachoeirinha dão o contorno periférico daquela região. A Freguesia nem é mais periferia e também não tem mais punks por lá. Mas se juntarmos os bairros desses distritos não considerados em minhas contas, chegaremos seguramente a 70% dos paulistanos.

Leia o artigo na íntegra em Le Monde Diplomatique Brasil

 

 
"quando as dificuldades e obstáculos do cotidiano transformam-se no poder criativo e libertador do indivíduo, deflagrando a arte."
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A arte como extensão do homem (da periferia)
Em 14/02/2008, por Camila Putti
A arte tem o poder de renovar a convivência entre as pessoas. Num ambiente marcado pela exclusão, pela violência e falta de perspectivas, é ela que transforma e humaniza as grandes periferias. A produção artística nos subúrbios cria um mundo imaginário (mas real!) onde se é possível conhecer o outro e, principalmente, a nós mesmos. A cultura suburbana explora o local, o espaço de convivência, o cotidiano, o que é incômodo. Seus artistas convertem suas experiências numa existência inovadora, onde a conquista do ser e da própria identidade é, quase sempre, alcançada.

As grandes influências da arte feita na periferia vêm de lutas antigas por espaço e visibilidade. Artes que resgatam raízes, costumes, história. O hip hop, o grafite, o audiovisual independente, as danças folclóricas, a música alternativa. Tudo produzido num contexto árduo, com poucos recursos, pouco incentivo e um tanto de discriminação.

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